quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Neve lá fora e aqui faz tanto frio... me chama, me chama!

Berlin tem uma estação de trem linda e super moderna. De cara, você vê que não há nem sinalzinho de resquícios do regime comunista. A cidade foi toda reconstruída, estou na parte oriental que é na verdade onde tudo hoje acontece. Todas as obras foram feitas aqui e pelo pouco que vi ontem, Mac Donalds e cia por todos os lados. Fiz vários roteiros pra passar meus últimos 5 dias aqui. Só que está menos 2 e nevando pesado.

Devo ir pra algum shopping. Ouçam isso novamente, estou em Berlin e vou ao shopping.

Conversei com algumas pessoas e definitivamente a História é sempre muito complexa. Analisar o que representou essa mudança para esses países exige muita delicadeza. É como se você vivesse de um jeito por toda sua vida e de repente tivesse que ser de outro. Obrigatoriamente, o sistema mudou e as pessoas também.Se já é difícil pequenas mudanças nos nossos hábitos o que dizer de uma mudança social, cultural e política desse tamanho.

Conversei com um jovem alemão de 19 anos. Mas ele mora no interior, em Desdren, durante três horas no trem suguei o garoto mas porque ele era inteligente e bem disposto a me passar informações.E eles gostam de falar de si. Não, todo o mundo gosta de falar de si mesmo.

Ele me falava do avô ( porque eu perguntei, eles são discretos) que lutou na Segunda Guerra e que ficou preso por 8 anos na Rússia. Me dizia que para os antigos não é nada fácil relembrar. Mas por outro lado é fundamental falar sobre isso.

E acho que é bem isso mesmo. Aquilo que é dor tem tempos que precisa ser falado, cuspido e sentido ao máximos. Em outros, é melhor deixá-la. Fazê-la quase esquecida. E ele me disse que para ele e seu pai, falar da guerra é complicado mas não é emocional. Para o avô é tentar sarar daquilo que não se sara.

Esse garoto nasceu em 1989. Logo depois da queda do Muro. Ele está estudando pra ser piloto de avião. Me contou que sobram vagas em universidades públicas. Exceto Medicina. Me disse que oportunidades são dadas ao povo alemão. Me contou que o estudo é pra todos que quiserem, mas logo disse que muitos não querem e que preferiam trabalhar como os pais ou avôs como operários em indústrias. E que não se interessam por um estilo de vida mais capitalista: estudar muito, trabalhar muito pra tentar ganhar muito, pra comprar roupa, carro, viajar e fazer tudo de novo até o fim.

Ele acha essas pessoas patéticas. Ele se indignou dessas pessoas não desejarem o estudo, coisa natural pra ele. Eu fico pensando, e no Brasil, o que aconteceria se todos pudessem realmente estudar? Quantos irião querer? Quantos irião preferir ficar no trabalho mais operacional, indo e vindo pra casa e tomando sua cerveja.

Não sei o que acho e especialmente não quero ter opinião formada, Raul Seixas já dizia que é melhor ser uma metamorfose ambulante. Mas gosto de pensar nisso e talvez humildemente ouvindo, possa compreender melhor a mim mesma.

Esse garoto me disse que morava em uma casa pequena mas suficiente. O pai, engenheiro mecânico e a mãe também se formou não sei em quê. Me contou que desde a queda do muro, o currículo escolar mudou, inglês no lugar do russo. E que supostamente todos os jovens daqui falam inglês, já que estudam por mais de 6 anos na escola.

Me disse que sua avó trabalhava na Prefeitura de sua cidade e que viajava muito pra Rússia e que ela às vezes, resmunga: " a gente não podia ir pra Paris mas podia ir pra Rússia e pra outros países comunistas".

Ele, o garoto se chama Max, sente que claro que os avôs gostam de ter a liberdade de ir e vir. Mas eu penso, que não sabem necessariamente o que fazer com ela. Igual a gente quando tem férias e fica perdido achando que tem que fazer alguma coisa, tamanho o costume em acordar e ir trabalhar.

Aqui têm muitos turcos, a maior comunidade turca que vive fora do país vive aqui na Alemanha, são 2,5 milhão por todo o país, especialmente Berlin. E de novo, retomo a questão que não me deixa: os imigrantes buscam uma vida melhor nesses países, abrem resturantes e fazem a vida por aqui. Sentem falta de casa e da cultura deles mas persistem.

Assim com os asiáticos, africanos, turcos e brasileiros. Sair do seu lugar e procurar um novo mundo. Me lembra os tempos antigos, quando os ingleses foram pra América, ou italianos para o Brasil.

Talvez a gente seja meio assim mesmo. De nenhum lugar. De todos os lugares. Se preciso damos conta de falar outra língua, conviver com hábitos que não aprovamos e suportar um clima que nem sempre é o nosso. Mas o que é nosso? Se eu tivesse nascido aqui seria uma outra garota; ou em Istambul.

O que eu adoro sentir é que não somos definitivos como muitas vezes eu me proponho. Não somos prontos. Nossas regras são só pra darmos alguma segurança para nossos pés andarem. Mas de segundo em segundo respiramos diferente. Nunca é nada igual mesmo que nos repetimos. Mesmo que nos forçamos a ser exatamente idênticos pra viver sempre a mesma coisa. Isso por causa do medo. Medo de ver que a gente não é nada que possa ser explicado. Nada que possa ser descrito. Nada que possa ser tocado tão a fundo. Nada que possa ser regulamentado, comprado ou qualquer coisa de lógico.

A lógica a gente inventa pra conseguir segurar dentro da gente esse tanto de vontade em simplesmente viver pra sempre.

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