O que é gentileza? O que acontece com os homens? Eu entrei no trem de Florença pra Milão carregando uma mala de 24kg, eu tenho 1,65 e devo pesar em torno de 55kg. Na minha frente um italiano de cachecol, possivelmente da minha altura que usava um par de óculos Gucci, me parece. Estava eu tentando subir os três degraus da escadinha pra subir no vagão e não posso esquecer vestindo um casacão e com uma mochila de supostamente quase 5kg. Fiquei entalada na portinha, quase quase caio de costas e morro de cabeça rachada porque um cara não pôde me dar aos mãos ou oferecer ajuda.
O que me leva a pensar que o mundo é um lugar horripilante ou as pessoas realmente não se importam. E me remete a uma outra cena que presenciei no domingo a noite. Um casal de 30 e poucos anos (americanos) entrou no restaurante charmoso em que eu estava. Ela sorridente e ele, ríspido, dizendo que precisava ir ao banheiro. Ela se sentou, era uma loira comum. Ele demorou a voltar e ela preocupada ficava olhando e quando ele finalmente voltou eis que nosso sapo chega resmungando que demorou que não tinha sabonete... e que não via nada de bom no cardápio. Ela tentando ser suave pediu o vinho, ele continuou na dele; ou simplesmente irritando a vida dela.
O clima era tenso e eu não sei nada dessas pessoas. Se eles haviam brigado, se estavam comemorando alguma ocasião ou se era lua-de-mel ( espero que não!). Simplesmente me faz pensar porque a gente trata tão mal quem a gente mais ama?
Será que é um costume? Será que a gente para de notar que aquele velho conhecido é parte do nosso mundo? Sei apenas que quando um deles adoecer, já sabemos quem irá passar a noite em claro no hospital pensando que a vida não pode acabar em uma cama regulável com enfermeiras te picando de duas em duas horas.
O que essa mulher esperava era tão pouco. Mão na mão, conversa banal sobre as fotos do dia ou um brinde com o vinho que ela escolheu já que ele não se importou tanto assim. E aí quem irá reparar os estragos? Quem irá remontar essa noite? O que irá curar a ausência dele ali? Não sei.
Talvez nossa pele seja assim. Corta, sangra, descasca e seca. Mas continuo pensativa e isso não diz respeito aos homens, o contrário acontece da mesma forma. A música diz: " All we need is love". E prosseguimos em nome e em busca disso, da iluminada e escandalosa sensação em existir pra alguém, ou pra muitos.
Queremos testemunhas que comprovem nossa presença; Família, amigos, filhos e amores. Tudo sempre agarrado.
Vejo meu avô, aos mais de oitenta anos: um senhor impaciente, ansioso e completamente despreparado para ser meigo em qualquer circunstância. Um italiano brasileiro que não consegue dar colo, mas que adora receber.
Na festa de aniversário de 60 anos de casamento com minha avó, todos reunidos naquele ritual típico, comer, não pra preencher o estômago mas a alma. E ali, naquela festa, ele e ela sabiam de cada palavra dita inadequadamente, de cada beijo dado quando o prazer ainda era prioridade, do choro de cada um dos filhos, do cansaço da vidinha cheia de repetições. Ambos atados pela história em comum.
Mas cada qual com sua melancolia única e ainda que tenhamos testemunhas, algumas coisas estão na caixa sem chave que um dirá será enterrada conosco. E o mundo fica completo, não só pelo o outro, mas por quem somos quando esse outro é convidado a se enfiar dentro de nós. E a gente simplesmente deixa...
4 comentários:
adorei esse texto, principalmente a partir de "melancolia única...."
ou o renatin tem razao,já deu,volta pra nóis!!!
viu? Eu tenho razão. Texto foda. Lindo demais. Agora aqui, 55kg vc? Tem certeza?
arrasou heim?!
Obrigada pelo texto!!! A carapuça serviu em alguns momentos.
Cotidianos e cotidianos!
Beijo no coração
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