sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Desbunde, maconha, bandeira vermelha, sapatos e Deus

São sete e meia da noite e deixo Roma amanhã. Amei isso aqui. Vindo de Paris, é no mínimo esperado achar isso aqui adorável. As pessoas na França, ou o parisiense te tratam como um lixinho sul-americano que não sabe diferenciar foie gras de pastel.

Enfim, o que faz um lugar ser atraente não é só a beleza. É como no amor ou na vida. Tem que ter aquela conversa suave, aquela preparação que te faz revirar o estômago e aquele afago no lugar inesperado.

Paris é Gisele. É loira, alta, charmosa, perfeita. Mas falta aquela coisa que faz a pessoa ser Sofia Loren ou Marlyn Monroe.

Roma é bagunçada, tem máfia, tem o pior metrô que já vi na vida. Tem lambreta, moto e carro enfiando um em cima do outro. E um bando de gente falando alto e gesticulando. Mesmo que você não entenda o que eles dizem, você sabe que eles estão ali tentando viver. Brigando por algo. E isso é o maior barato...

E como estou tendo sorte, hoje chegando ao Coliseu estava tendo uma passeta e fui conversar pra saber o que acontecia. Tinham muitos jovens e uma mulher berrando no alto-falante e eles reclamavam o corte de verba para as universidades públicas.

E aqui chegamos ao título do texto que foi mais uma estratégia pra vocês lerem tudo! Desbunde porque parecia os anos 70. Bandeiras vermelhas, música de protesto, casais beijando de língua no meio da passeata e maconha.

Sim, as pessoas adoram falar que o jovem brasileiro é alienado, que tudo vira festa. Aqui também. Muita cerveja e eles cantando e andando e eu ali curtindo com o pessoal como se eu também tivesse 20 anos e acreditasse que o futuro está nas minhas mãos.

Vi muita gente bonita. Gente misturada, cabelos anelados, lisos, de todas as cores. Olhos azuis e pretos e castanhos. E me impressiona o quanto nós no Brasil queremos ter uma cor só. Uma beleza padrão e de preferência nórdica.

E a melhor notícia: a polícia italiana acompanhando e organizando a passeata. Tinha muita polícia mas não vi absolutamente algum ato de violência como vemos normalmente no Brasil. E isso claro me entristece, eu não saí do meu país pra ficar falando dos nossos problemas. É um absurdo eu que tive oportunidade de estudar, usar um pensamento simplista de sul-americana complexada de que tudo no exterior é melhor que nosso.

Nada disso, inclusive irei afirmar algo, o Coliseu, Pantheon, Fontana di Trevi, Piazza Navova são lugares especiais. Linda a arquitetura. Sufocante ver o que podemos construir. Mas no meio de tudo meu coração que é bossa-nova, lembra de como me sinto quando vejo o Rio de Janeiro.

E aqui eu chamo Deus. Ele desenhou aquilo tudo pra gente. E colocou montanha, mar, sol e nos deu. Mas olha só o que a gente fez?!

Meu amigo francês me perguntou se eu era cristã, e eu respondi rindo: "estudei oito anos em colégio católico e as freiras eram malvadas". Mudei de assunto.

E ontem, só de andar pelo Vaticano senti algo. E as pessoas caminhando e você vai sentindo a energia. Você percebe que aquilo é um ritual. Que aquele espaço é espaço da alma das pessoas. Quantos pedidos e quantas confissões não aconteceram ali?

E eu que acho a Igreja Católica retrógada, conservadora, homofóbica e burguesa dentre outros não me atrevi a deixar de curtir a energia por causa de um pensamento racionalista, científico ou qualquer outra categoria do pensamento.

Eu deixei o que ali tinha de bom me tocar. E seria assim na Índia. No japão. Na Palestina. Não é ser ou não cristão que me interessa, é saber se a gente consegue ver o outro como nosso. É saber se quando tenho atitudes que eu considero ruins, depois eu consigo reconhecer minha fragilidade e agir de outra forma na próxima. Me interessa saber se me comovo com quem está jogado na rua e que eu posso tantas vezes fingir que não vejo. Me interessa saber o que eu posso fazer pra pelo menos dar conta de tolerar o que eu não entendo. Me interessa saber se eu dou a vida o que eu posso ou se eu quero me esconder dela?!

Infelizmente minha máquina ficou sem bateria e não fotografei lugares maravilhosos. Dessa vez também está no coração mas queria muito compartilhar com vocês.

Amanhã Florença há de ser bem italiana. Minha origem é essa também, talvez por isso esteja me sentindo bem. Italianos são passionais, só Deus mesmo pra da conta da gente.

Bacio!

Um comentário:

Anônimo disse...

bom pra caralho, adorei. Imagino as pizzas e as risadas pra ouvir as histórias. Tamo por aqui torcendo. Beijão.